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“O que a Bíblia diz sobre tatuagens e piercings?

A questão sobre tatuagens e adornos corporais é um dos temas que mais geram debates acalorados nas igrejas. Para alguns, é uma questão de liberdade; para outros, uma violação da santidade. No entanto, para o estudioso das Escrituras, a resposta não está em opiniões pessoais, mas em um mergulho profundo no contexto histórico, na exegese dos originais e na compreensão das leis de Deus.

Neste guia, analisaremos o que a Bíblia realmente diz, indo muito além do “pode ou não pode”, explorando a teologia do corpo como propriedade divina.


1. O Contexto de Levítico 19:28 e a Lei da Santidade

O que a Bíblia diz sobre tatuagens e piercings?

O texto central utilizado para proibir a tatuagem é Levítico 19:28: “Não fareis lacerações na vossa carne pelos mortos; nem no vosso corpo imprimireis marca alguma. Eu sou o Senhor”. Para entender este versículo, precisamos de rigor exegético.

A Proibição Relacionada à Idolatria

No hebraico, a palavra para marca é kethobeth. O contexto imediato do capítulo 19 trata da santidade do povo de Israel em contraste com as nações cananeias e egípcias. Os povos pagãos realizavam incisões e tatuagens como parte de rituais fúnebres. Eles acreditavam que, ao marcar o corpo com o nome ou símbolo de um morto ou de uma divindade pagã, estariam vinculados espiritualmente àquela entidade para proteção.

Portanto, a proibição de Levítico não era uma lei estética, mas uma lei contra a idolatria. Deus estava preservando a identidade de Israel como um povo que pertence exclusivamente a Ele. Ao dizer “Eu sou o Senhor” logo após a proibição, Deus estabelece que a marca de propriedade sobre Israel não deve ser feita por mãos humanas, mas pela obediência à Aliança.


2. A Tipologia das Marcas: De Caim ao Apocalipse

A Bíblia usa o conceito de “marca” de forma tipológica em toda a sua extensão. Entender essa trajetória é fundamental para a teologia do corpo.

  • A Marca de Caim (Gênesis 4:15): Deus colocou um sinal em Caim. Aqui, a marca não era uma punição, mas um sinal de proteção divina. Deus usa o corpo para comunicar uma mensagem de Sua soberania.
  • O Selo do Espírito Santo (Efésios 1:13): No Novo Testamento, a ênfase muda do físico para o espiritual. Fomos “selados” com o Espírito Santo da promessa. Este é o sphragis, a marca de propriedade definitiva. A reflexão que surge é: se o selo de Deus em nós é espiritual e eterno, até que ponto a busca por marcas físicas reflete uma carência de compreensão desse selo espiritual?
  • As Marcas de Jesus (Gálatas 6:17): Paulo afirma: “Trago no meu corpo as marcas (stigmata) de Jesus”. Paulo não se referia a tatuagens, mas às cicatrizes de sofrimento pelo Evangelho. Isso levanta uma questão profunda sobre a estética da dor: as marcas que glorificam a Deus na Bíblia são, geralmente, aquelas que resultam do sacrifício e do serviço, não da vaidade.

3. A Lei do Escravo por Amor: O Piercing de Êxodo 21:6

Um dos textos mais fascinantes e pouco explorados sobre perfuração corporal está em Êxodo 21:2-6. A lei mosaica previa que um escravo hebreu deveria ser libertado após seis anos de serviço. Porém, se o escravo amasse seu senhor e não quisesse a liberdade, um ritual específico deveria ocorrer:

“…então, o seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou à ombreira, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.”

A Teologia da Marca Voluntária

Aqui, temos um piercing na orelha ordenado por Deus como símbolo de lealdade perpétua e amor voluntário.

  1. A Marca de Submissão: O furo na orelha simbolizava que o ouvido do servo pertencia agora à voz daquele senhor.
  2. O Princípio da Motivação: Deus permitiu uma modificação corporal quando ela servia para testemunhar uma aliança de amor e compromisso. Isso nos ensina que, na perspectiva bíblica, a marca física tem valor quando aponta para uma realidade espiritual de entrega.

4. Ornamentos e Joias: Quando Deus Adorna Seu Povo

Muitas correntes legalistas condenam qualquer tipo de adorno, mas as Escrituras mostram Deus usando a linguagem das joias e ornamentos para descrever Sua benção e Seu amor por Israel.

  • O Casamento de Isaque e Rebeca (Gênesis 24): O servo de Abraão presenteou Rebeca com um pendente para o nariz (piercing) e pulseiras de ouro. Rebeca, uma mulher virtuosa e patriarca da , aceitou e usou esses adornos como sinais de uma promessa matrimonial.
  • A Metáfora de Ezequiel 16:11-12: Deus descreve como resgatou Jerusalém e a adornou: “Eu te enfeitei com joias… coloquei um pendente no teu nariz, arrecadas (brincos) nas tuas orelhas e uma linda coroa na tua cabeça”.

A Lição: Os adornos não são intrinsecamente malignos. O ouro e a prata são do Senhor. O problema bíblico com adornos surge apenas quando eles se tornam instrumentos de orgulho, ostentação ou idolatria (como no caso do Bezerro de Ouro ou nas advertências de Isaías 3 sobre a vaidade das filhas de Sião).


5. O Templo do Espírito Santo e a Mordomia do Corpo

No Novo Testamento, a base para qualquer decisão sobre o corpo é 1 Coríntios 6:19-20: “Acaso não sabeis que o vosso corpo é o santuário do Espírito Santo… Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo”.

A Diferença entre Liberdade e Edificação

Em 1 Coríntios 10:23, Paulo estabelece o filtro definitivo: “Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam”. Ao considerar uma tatuagem ou piercing, o cristão deve aplicar a Lógica da Edificação:

  • Isso edifica minha vida espiritual ou apenas satisfaz meu ego?
  • Isso aponta para a glória de Deus ou atrai a glória para mim?
  • Meu corpo é o templo; eu sou o zelador, não o proprietário. Como zelador, tenho autorização do Proprietário para esta alteração?

6. A Lei da Consciência e o Escândalo (Romanos 14)

A Bíblia aborda questões de “opinião” e “liberdade” com muito cuidado. Se um irmão faz uma tatuagem com a consciência limpa diante de Deus, mas isso causa queda a um irmão mais fraco, a lei do amor deve prevalecer sobre a lei da liberdade.

  • A Motivação do Coração: Deus olha o coração (1 Samuel 16:7). Uma tatuagem cristã (como uma cruz ou um versículo) feita com um coração rebelde é vã. Da mesma forma, a ausência de tatuagens em um coração cheio de julgamento e legalismo também é reprovada por Deus.

Expansão I: O Contraste de Isaías 3 – Adorno vs. Soberba

Para compreendermos a visão bíblica sobre alterações corporais, precisamos analisar Isaías 3:16-24. Este é um dos textos mais fortes sobre a estética aos olhos de Deus.

Nesta passagem, o profeta denuncia as mulheres de Sião não pelo fato de usarem joias (pendentes, braceletes, enfeites de pernas e anéis de nariz — o que hoje chamaríamos de piercings), mas pela atitude do coração que esses objetos representavam. O texto diz que elas caminhavam com “pescoço erguido” e “olhares impudentes”.

  • A Lição Teológica: O julgamento de Deus não caiu sobre o “ouro” ou o “furo”, mas sobre a soberba. Quando o adorno corporal (seja uma tatuagem ou um piercing) serve para inflar o ego, ostentar riqueza ou demonstrar uma independência rebelde contra Deus, ele se torna pecado. A Bíblia nos ensina aqui que a estética nunca é neutra; ela sempre comunica uma intenção do espírito. Se a marca no seu corpo grita “olhem para mim” em vez de “olhem para Cristo”, ela viola o princípio da humildade profética.

Expansão II: A Tipologia do Tabernáculo e a Mordomia do Corpo

Muitos cristãos citam que o corpo é o “Templo do Espírito Santo”, mas poucos entendem a profundidade dessa comparação baseada em Êxodo 25-40.

  • O Modelo Revelado: No Antigo Testamento, Deus deu instruções minuciosas para a construção do Tabernáculo. Nada era feito por vontade humana; tudo seguia o modelo celestial. Ao aplicarmos isso ao Novo Testamento (1 Coríntios 6:19), entendemos que o nosso corpo é o lugar onde a Glória de Deus reside na Terra.
  • A Santidade das Paredes: Se o Tabernáculo era santo, cada utensílio e cada cortina eram consagrados. Se decidimos “pintar as paredes” desse templo com uma tatuagem, a pergunta bíblica não é “eu gosto?”, mas “este desenho é digno de estar no lugar onde o Deus Santo habita?”. A mordomia do corpo exige que tratemos nossa pele com a mesma reverência que os sacerdotes tratavam o Santo dos Santos. Qualquer marca que desonre a imagem de Deus (Imago Dei) em nós é uma profanação do santuário.

Expansão III: Escatologia e Marcas – O Conflito de Propriedades

O livro de Apocalipse é o ápice da discussão bíblica sobre “marcas”. Ele apresenta um contraste absoluto entre dois tipos de marcas no corpo:

  1. O Selo dos 144.000 (Apocalipse 14:1): Eles têm o nome do Cordeiro e do Pai escrito em suas testas. Esta é a marca da redenção, o sinal de que Deus é o dono daquelas vidas.
  2. A Marca da Besta (Apocalipse 13:16-17): Uma marca na mão direita ou na testa que sinaliza submissão ao sistema do anticristo e apostasia contra Deus.
  • A Reflexão Escatológica: Biblicamente, a marca no corpo sempre sinaliza lealdade. Ao decidir por uma marca permanente, o cristão deve se perguntar: “Esta marca me identifica com o Reino de Deus ou com os padrões deste mundo?”. Embora uma tatuagem comum não seja a “marca da besta”, o conceito bíblico nos alerta que o que imprimimos em nossa pele comunica a quem pertencemos e a quem adoramos.

Expansão IV: Guia de Sabedoria Baseado em Provérbios

Para finalizar, a Bíblia nos oferece o livro de Provérbios como filtro prático para decisões irreversíveis:

  • A Lei da Honra (Provérbios 1:8): “Filho meu, ouve a instrução de teu pai e não deixes o ensino de tua mãe”. Se você é jovem e seus pais não aprovam a tatuagem ou o piercing, a Bíblia é clara: a honra gera benção, a rebeldia gera dor. Nenhuma marca física vale a quebra do mandamento da honra.
  • A Lei da Prudência (Provérbios 14:15): “O simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos”. A tatuagem é permanente, mas as emoções são passageiras. A Bíblia condena a pressa (Provérbios 19:2). Se você quer marcar o corpo hoje, ore e espere um ano. Se o desejo vem de Deus e visa a glória d’Ele, o tempo não o destruirá.

7. Conclusão: O Selo de Deus é a Nossa Maior Marca

A conclusão bíblica é que não existe uma proibição moral direta para o cristão da Nova Aliança quanto ao uso de tatuagens ou adornos, desde que estes não estejam ligados a cultos pagãos, rebeldia ou vaidade extrema. No entanto, a Bíblia nos chama a uma estética da modéstia.

A maior marca que um cristão pode carregar não é impressa com tinta ou metal, mas é o fruto do Espírito. Se o seu desejo de marcar o corpo é maior que o seu desejo de marcar a sociedade com o amor de Cristo, é hora de reavaliar suas prioridades diante do Altar.

Tabela de Consulta Rápida: O que a Bíblia diz sobre o Corpo e Adornos

Referência BíblicaResumo do ContextoPrincípio Aplicado
Levítico 19:28Proibição de marcas e cortes pelos mortos.Separação: O povo de Deus não deve imitar rituais pagãos ou idólatras.
Êxodo 21:6O furo na orelha do escravo que ama seu senhor.Lealdade: Marcas corporais podem simbolizar entrega e compromisso voluntário.
Gênesis 24:22Rebeca recebe um pendente para o nariz e pulseiras.Adorno: Joias e ornamentos não são pecaminosos em si; foram presentes de Deus.
Ezequiel 16:11-12Deus descreve como adornou Jerusalém com joias e brincos.Beleza: Deus usa a beleza estética para simbolizar Sua benção e aliança.
1 Coríntios 6:19-20O corpo como Santuário do Espírito Santo.Mordomia: O corpo não é nosso; pertence a Deus e deve ser preservado para Sua glória.
1 Coríntios 10:23“Tudo é lícito, mas nem tudo convém”.Edificação: A liberdade cristã é limitada pelo que traz crescimento espiritual.
Isaías 3:16-24Julgamento sobre a vaidade das filhas de Sião.Motivação: O problema não é o objeto, mas o orgulho e a ostentação.
1 Samuel 16:7“O homem vê a aparência, mas Deus vê o coração”.Prioridade: A santidade interna precede qualquer marca ou adorno externo.
Gálatas 6:17Paulo fala das “marcas de Jesus” em seu corpo.Testemunho: As marcas mais valiosas são as que resultam do serviço ao Evangelho.
Apocalipse 14:1Os 144 mil com o nome do Cordeiro na testa.Propriedade: O selo espiritual de Deus é a nossa marca definitiva de identidade.

Pastor Reginaldo Santos

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